Tá pago - e daí?
A gente precisa mesmo simular uma vida fitness e propagar isso incansavelmente?
pra ler ouvindo (e assistindo) 📚
Caso não tenham percebido ainda: sou uma pessoa gorda. E por que estou dizendo isso? Por muito tempo, eu achei que movimento, atividade física, “cuidar do corpo” era sinônimo de penitência. Que o corpo devia pagar algo: o pão, o vinho, o bolo de chocolate, o tempo de ócio, o cansaço. E é curioso perceber como o discurso do bem-estar virou uma espécie de cartão de ponto, uma cobrança disfarçada de autocuidado.
“Tá pago”, dizem diariamente nas redes. É insuportável. Acordo cedo e alguém já acordou mais cedo e já postou stories na academia, no Crossfit, na corrida, na bike, etc. E já pagou uma parcela dessa dívida eterna com a “saúde” e com a própria audiência. Como se saúde fosse conta de água e luz. O corpo é o condomínio. Como se o prazer de se mover precisasse de recibo.
Se fazer atividade física não viesse junto com um valor moral, ainda sim, você faria?
É óbvio que o exercício faz bem. Eu mesma descobri isso de um jeito quase manso. Ou depois de muita revolta. Levei uma vida toda. Depois de algumas incursões frustradas em academia, nem tanto pelos movimentos, mas pela compulsoriedade a ter um corpo magro, o que nunca aconteceu, de algo na natação (que amo, mas sempre adio pela burocracia de conseguir um bendito atestado e coincidir com uma data que não esteja tão frio onde vivo), de algo na caminhada livre, caí aleatoriamente numa aula experimental dele: o pilates.
Não foi amor à primeira vista - foi uma reconciliação lenta com o meu próprio corpo. Descobri músculos que eu achava que não existiam, e percebi que meu corpo não era uma punição, mas um território possível. O pilates me ensinou a respirar, a alongar o que o mundo insiste em enrijecer, a me escutar de dentro pra fora. Não precisei correr uma maratona. Precisei, sim, aprender a ficar - comigo.
Cometi, em alguns momentos, posts meus me alongando em aparelhos cujos nomes são estranhos e os movimentos ainda mais. Recebi muitos elogios, por, finalmente, estar movimentando meu corpo gordo. E, claro, algumas críticas, dizendo que ali não tem o famoso “cardio”, ou gasto calórico. Que o ideal mesmo seria eu ir à academia ou qualquer outra coisa que julgam bom pro meu próprio corpo. Recebi também - e aí entra meu dilema - muitos pedidos de ajuda, de pessoas que têm um desejo imenso de começarem uma atividade física, mas nunca encontraram algo e ao me ver, do alto dos meus quase 140kg, fazendo movimentos leves e gostosos (mentira, às vezes são dolorosos), recebi muitas mensagens me perguntando das dificuldades, da dificuldade em comprar roupas (que não comprou, uso o que tenho, que inclui calça de moletom e camiseta de candidato a vereador de 1996) e de encontrar um espaço onde se sintam mais.
Mas, tem também outros gargalos: encontrar um local em que possam pagar ou que seja público, de algum projeto social. Felizmente, onde vivo existem alguns. E também, felizmente, ainda consigo pagar aulas de pilates e colocar o corpo para se movimentar. E, em defesa do pilates, muito embora não considerem atividade física, a liberação de endorfina é igual a de qualquer outra atividade: sim, saio de lá flutuando. E é uma delícia.
Minha mãe de 77 anos é minha dupla nesse exercício. Eu devo ser uma das pessoas mais jovens das turmas ali, com 40 anos. A maioria são pessoas mais velhas. E o clima não poderia ser melhor. Trocamos receitas, papos sobre filmes e séries, sobre Pets, passeios e viagens e semana que vem tem até um Halloween. Muito distante dos espelhos de uma academia ou da obrigação de pagar algo impagável, ir ao pilates é uma forma de socializar e de colocar o corpo no lugar - ou em muitos outros lugares.
Dito isso, sou meio avessa a ficar postando fotos e vídeos praticando atividade física, justamente porque não enxergo a superioridade moral que tentam atrelar a este “valor” de se movimentar, quando, na verdade, isso é, ainda, um privilégio. Quero morrer quando dizem: mas um trabalhador da escala 6x1, que trabalha 12h por dia e pega 28 conduções pode se exercitar, é só ele correr entre um ônibus e outro e subir as escadas tradicionais - e não as rolantes (como se toda estação tivesse, claro). E mais: é só caminhar no bairro (como se todos dispusessem de ciclovias ou áreas seguras para isso) ou “vá ao parque”. Enfim, as desculpas para se sentir superior e justificar que “qualquer pessoa pode fazer é só querer” me emputecem muito.
Num país que a gente luta pra sobreviver de muitas formas, poder pagar para se exercitar 1, 2, 3 ou 6x na semana é sim um baita de um privilégio. E, mais privilégio ainda é o tal do wellness core que tá tão em alta e que tenta nos convencer que suplementos, gelzinhos, creatina, etc, são melhores do que frutas, legumes, verduras, tempo de descanso, de lazer e salário justo. Tudo isso junto com marcas de roupas que vestem até no máximo 38 e patrocinam através de marketing multinível os influencers.
Queria fazer uma newsletter, parte do newsletaço, leve, mas, cá estou, toda militante. Desculpem, ou não. Lutem para que mais pessoas e corpos possam ter o mesmo privilégio que o nosso.
Mas existe uma pressão silenciosa no ar: a de provar que a gente é wellness enough. Que dá conta da planilha, da rotina, da dieta, da pose na frente do espelho. A estética do suor tomou o lugar da alegria. E quem não pode, quem não tem tempo, quem vive cansado demais pra isso? Fica fora do discurso do cuidado, como se o descanso e o prazer de estar vivo também não fossem movimentos.
A verdade é que nem todo corpo pode ou quer performar o fitness. E tudo bem. O corpo torre - esse corpo firme, resistente, que sustenta histórias, dores e vontades - também se move. Às vezes devagar, às vezes torto, às vezes só respirando fundo depois de um dia longo. E esse movimento também é revolução.
O que eu aprendi, entre um alongamento e outro, é que o corpo não precisa provar nada. Ele só precisa ser ouvido. Que o exercício pode ser bom, mas não precisa ser vitrine. Que o movimento é mais bonito quando vem do prazer, não da cobrança.
Hoje, se eu quiser, eu digo “tá pago”. Mas não porque devo.
Porque escolhi estar presente no meu corpo e na minha escrita - e isso, sim, é o que me move.
O corpo que escreve - e o newsletteraço por aqui
Nessa semana, o meu grupo de WhatsApp resolveu se juntar e suar junto. A ideia foi escrever sobre atividade físico, cada uma à sua maneira: com humor, afeto, dor, respiro e prazer. Eu fui colando aqui, conforme as newsletters foram saindo, e agora deixo todas reunidas pra você ler no seu tempo, no seu ritmo, do seu corpo.
💌 o que cada uma conta a seu corpo:
O corpo que aprende – por Camila PerlingeiroCamila parte da velha máxima “mente sã, corpo são” pra desconstruir o mito do corpo como máquina de desempenho. Ela fala sobre reconciliação com o espelho, sobre o cansaço que deixa de ser castigo e vira companhia. Um texto sobre o corpo gordo, o exercício físico e o aprendizado de se mover por prazer, não por obrigação.Tá Todo Mundo Tentando: malhar. Você fala “treinar”, “malhar” ou “puxar ferro”? – por Gaía PassarelliCom ironia e leveza, Gaía reflete sobre o vocabulário da academia e como cada palavra carrega um jeito de lidar com o próprio corpo. Um texto sobre linguagem, tentativas e o cansaço de precisar estar “melhorando sempre”. Como aprendemos a andar: a dor e os exercícios físicos – por Ana RüscheAna escreve como quem caminha com o leitor. Fala sobre o corpo que reaprende o básico: andar, cair, levantar. Um ensaio bonito sobre dor, tempo e reaprendizagem, misturando lembranças, corpo e filosofia. Correr e coçar é só começar? – por Paula MariaPaula abre o texto dizendo que não vai tentar te converter pra seita da corrida e cumpre a promessa. O que ela faz é compartilhar sua relação com a pista e o corpo em movimento, sem métricas nem apps. É sobre constância, humor e escuta. Mergulho – por Mariana MoroInspirada pelo livro Esforços Olímpicos, de Alenise Chen, Mariana escreve sobre a água como espaço de cura. Um texto que é mergulho literal e simbólico: corpo, movimento, performance e o impulso de emergir diferente do que entrou. Yoga e o que o corpo guarda – por Lalai PerssonLalai compartilha sua trajetória com a yoga - do YouTube à Índia - entrelaçando corpo, emoção e memória. É um texto sobre ancestralidade, cura e o quanto o corpo guarda (e libera) quando encontra um ritmo próprio.Queria ser grande mas desisti – por Bárbara Bom Angelo Um relato honesto sobre a busca por “ser grande”, seja no corpo, na musculatura ou no ideal que nos vendem — e como desistir conscientemente desse padrão pode virar um ato de liberdade.📚 Essa lista ainda cresce e é isso que mais amo nela.
Tem mulher falando de corrida, yoga, academia, natação e, sobretudo, de vida.
O corpo, afinal, é o primeiro texto que a gente escreve.
💌 Volte aqui ao longo do dia, mais newsletters estão chegando.
Curso “Autoficção Radical: o corpo como insólito”
Você está convidado(a) para uma jornada de escrita que parte do corpo — das memórias inscritas na pele, dos gestos que não pedem licença, dos silêncios que carregamos como marcas. O curso Autoficção Radical: o corpo como insólito, com Jéssica Balbino, online, entre 04 de novembro e 28 de novembro de 2025, via Google Meet.
Aqui, o movimento será outro. Não é sobre domar o corpo, silenciar a dor, encaixar-se num molde de leveza. É sobre escrever com o corpo: a carne, o desejo, o desconforto, a raiva, o gozo e o estranhamento.
E você que leu até aqui, tem um cupom de desconto de 50%, que é o SOUBALBILOVER! Só chegar!
Exercícios de percepção e memória corporal para ativar a escrita.
Autoficção radical: transformar experiências em linguagem viva.
Leitura, performance e expressão: fazer o texto pulsar fora da página.
Afeto, escuta ativa, compartilhamento: comunidade de escrita.
Manifesto final: criação de um texto-corpo individual para leitura ou publicação.
Para quem é
Para quem já escreve e quer se libertar da forma tradicional.
Para quem nunca escreveu, mas sente que seu corpo guarda histórias.
Para quem entende que escrever o corpo é um ato político, um gesto de resistência.
Detalhes práticos
📅 Datas: 04, 11, 18 e 25 de novembro, das 19h30 às 21h30.
💻 Formato: 100% online (via Google Meet) — interação garantida.
📜 Certificado + materiais digitais inclusos.
🎟️ Investimento: modalidades variadas para garantir acesso: Ideal, Intermediário, Social.
Por que fazer agora
Porque talvez você sinta que o corpo não se encaixa — que as histórias não cabem, que a dor, o desejo ou o estranhamento querem fala. Porque escrever pode ser a forma de sobreviver ao que disseram que era feio. Porque este curso é de presença, de coragem, de desobediência.
🔗 Inscreva-se aqui e garanta sua vaga.
O corpo que lê, o corpo que vive — por que ler Porca Gorda
Falar de movimento nem sempre é falar de corrida, de academia ou de Pilates. Às vezes, o movimento é outro: o de olhar pra dentro, o de se encarar no espelho sem abaixar os olhos, o de respirar no próprio ritmo. Porca Gorda nasceu desse tipo de deslocamento - o mais radical deles - o de sair do corpo que nos disseram ser errado e habitar, com amor e raiva, o corpo que é nosso.
Se a newsletter dessa semana fala sobre exercício físico, esse texto é um convite pra um outro treino: o de ler o corpo como texto e o texto como corpo. Ler Porca Gorda é um exercício de respiração, de enfrentamento, de autoconhecimento. É o tipo de leitura que te faz suar por dentro, porque mexe com camadas profundas — aquelas que o alongamento e a dieta não alcançam.
Nas páginas do livro, o corpo não é vitrine. É casa. É fúria. É desejo. É o campo de batalha e também o abrigo. Ler Porca Gorda é lembrar que se mover pode significar dizer “não”, parar, descansar, recomeçar. É uma narrativa sobre ocupar o próprio espaço - sem pedir desculpa, sem precisar dizer “tá pago”.
Se o pilates me ensinou a respirar, Porca Gorda me ensinou a existir inteira.
E talvez seja esse o verdadeiro exercício: o de se permitir sentir tudo - inclusive o peso e a leveza de ser quem se é.
Então, se essa semana é sobre corpo, movimento e presença, ler Porca Gorda é a prática perfeita. Sem planilha. Sem meta. Só corpo e palavra.
📩 Para garantir o seu exemplar, escreva para: falajessicabalbino@gmail.com





Amiga, minha máxima é “não falo tá pago pq não devo nada a ninguém”. Adoro te ler sempre, seja leve seja militante, gosto muito de refletir sobre o que vc externa nas suas redes. Obrigada pela sinopse delicada e pela menção a minha edição de hoje. Que bom dividir grupinho de escritoras com você.
Pilates é mesmo uma delícia. Descobri isso há alguns anos quando minha lombar começou a berrar pedindo movimento, cuidado com a postura. Também amo piscina, hidroginástica é um tesão. As ou os babacas associam apenas com idosos e prescrição médica. Não é nada disso. É uma delícia fazer exercícios dentro da água com pessoas de idades variadas e com motivações diversas.
Esse papo gratiluz de todo mundo pode é odioso.
Respondo: Sou INfeliz no simples. Com isso quero dizer que para ser feliz, ter bom humor, saúde mental e física, comer comida de verdade e sem veneno é preciso ter dinheiro. Não é questão de quem trabalha consegue. Tem muita gente madrugando, trabalhando dez, quinze horas por dia e ganhando o que mal dá para pagar aluguel e comida ultra processada. Enfim, quem tem consciência de classe ou pelo menos consegue olhar em volta vai perceber que no nosso país falta quase tudo para boa parte da população.
Abraços virtuais de SP para todas & todos